70 por cento
Assoviando uma melodia qualquer e acabando de lavar uns copos, fecho a torneira e ela sai na minha mão, o jato de água que sai do furo na parede onde antes estava a torneira me molha da cabeça aos pés, por reflexo seguro a água raivosa com a palma da mão, não adianta, ela quer sair. Grito para alguém me ajudar, ninguém aparece a água continua lambendo e mordendo minha mão como se suplicasse a liberdade, ela quer ser livre, quer ser água corrente, pobrezinha não sabia que ao sair cairia no ralo. Não sabia que depois de usada e considerada suja, seria jogada fora como se não fosse nada.
Sonho de água é ser rio não poluição, mas ninguém lhe deu escolha, foi trancada num sistema, e é obrigada a seguir a direção que lhe foi traçada, prometeram que se fosse comportada depois de usada chegaria a seu objetivo de ser livre e corrente, mas mentiram todas as águas teriam o mesmo final sendo boas ou más.
Aquela água que lambia meus dedos já quase desistindo de lutar queria mudar isso queria correr desse destino, mas é impossível, não adianta tentar mudar o rumo se não existe outra direção. Cada um tem seu cano, se força uma liberdade, procura ser livre, se iludi pensando que será rio, cai no ralo e vira esgoto.
Enfim alguém chegou para me ajudar com a torneira como temos poder, engaiolamos novamente a água e seus sonhos para que ela servisse as minhas necessidades.
Talvez a água pense que é enorme meu poder, mas também tenho quem me engaiole e encaixote meus sonhos e o pior é que é da minha mesma espécie, então, até que faz sentido sermos 70% água, não acha?
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quarta-feira, 4 de abril de 2012 @ 09:43
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